A tarde começou fria, pedras de gelo caindo do céu no meio do vendaval. 14hs: chamei o pessoal para uma jogatina, mas precisava tirar um cochilo antes deles chegarem, para repor energias da jogatina anterior. xuBs, Daniel e Pablo confirmaram presença. 15hs: tirei o som do celular e fui dormir. E cai em sono tão profundo, devo ter roncado como os vulcões da Guatemala. 16hs: escuto o interfone, o despertador e o celular tocando, tudo ao mesmo tempo. xuBs chegou, em seguida, o motoqueiro fantasma, em suas últimas horas de inferno astral e pouco mais tarde, chega o Pablo. Puxamos o Tikal que Daniel e Pablo nunca tinham jogado. Alguns acertos até definir as regras do leilão e atualizando as regras corretas e que geralmente não prestamos atenção, por exemplo, a) só é permitido escavar no máximo dois niveis de um mesmo templo (pode ser feito em mais de um templo na mesma jogada) e pegar no máximo dois tesouros por jogada, b) só pode fazer ambas as ações se o jogador tiver dois ou mais pesquisadores no local, ou seja, com um só só pega um tesouro. Sobre os acampamentos: podem ser construídos em local onde tenha pesquisadores de qualquer jogador, não precisa ser o seu. Acampamentos II: com um ponto de ação, um pesquisador pode ser teletransportado de um acampamento para outro. Tiradas as dúvidas, começamos a desbravar a floresta guatemalteca em busca de tesouros e templos. Os tesouros começaram a aparecer em grande variedade, mas ninguém conseguiu fazer uma duplinha até o primeiro vulcão acordar e entrar em erupção. O leilão estava tão pesado que o Pablo chegou a ter menos de vinte pontos nesta fase. Enfim, a partida correu tensa, com leilões cada vez mais caros, pesquisadores vagando pela floresta, tendo delírios ora com o mar, ora com montanhas altíssimas e pontes incendiadas. Eu estava indo bem, escavando a região norte bem solitáriamente enquanto os outros brigavam entre si, até que no último turno, bobeei, deixei passar o leilão pensando que estava caro pagar quatro pontinhos por um hexágono besta, Daniel e xuBs jogaram na minha frente e bloquearam vários templos a minha volta. Ficou impossível fazer mais pontos. Fim de partida, xuBs com 106 pontos, se bem me lembro. Fiquei em segundo com noventa e poucos, seguido por Daniel e Pablo.
Daí fomos para a estiva. Quem disse que era feriado? Trabalho pesado no porto de Le Havre. Cada um desenvolveu por um caminho. Daniel, marujo experiente, atento às histórias de self-made-men que escuta no cais, acreditou firme no dito popular francês "devo não nego, não pago quando puder" e se deu bem. Foi de mansinho, usando a tática alisoniana de se acreditar ferrado para desviar a atenção sobre si mesmo, enquanto deixava seus funcionários passarem fome para chorar empréstimos a juros camaradas. Foi comprando barato um navio aqui outro ali, montou uma frota fantasma que a receita federal acreditou ser deficitária, sem ligar para as denúncias anônimas de que teria usado argila em vez de tijolo para várias de suas construções. O aniversariante não ligou para as calúnias, "não me inveje, trabalhe" dizia ele, mascando um fiapo de capim no canto da boca, a caminho da rede em sua doca, para acompanhar no blackberry a cotação do aço na bolsa de valores japonesa e conferir sorteios de seus carnês do Baú da Felicidade. Enquanto isso, Pablo receptava centenas de cabeças de gado, recheadas de muamba, honrando cada prato de comida devido religiosa e semanalmente, sem nunca deixar uma criancinha sem pão no lanche, churrasco no fim de semana e chocolate na sobremesa. Perdeu a partida, com dignidade. xuBs concentrou-se no pescado e fez hora extra na arrumação do porto, preparando marmitas para o dia seguinte. De repente, vendo que o vizinho que não trabalhava tinha construído um novo cais de tijolos começou a sentir cheiro de truta, ficou com medo de robalo, e denunciou anonimamente o colega por suspeita de estelionato. Como sabemos, a justiça francesa é lenta e inoperante, o caso está tramitando na corte até hoje sem data para prescrever. A decepção com a humanidade o fez cair em depressão, seu único barco carecia de manutenção urgente, os peixes apodrecendo no depósito, o gelo derretendo no copo de guaraná, a pizza esfriando no prato."xuBs, é sua vez", diziamos para ele, mas o cabra tinha enlouquecido. Só repetia "ele usou argila em vez de tijolos! Este filhote de Sérgio Naya! Quero ver quando este império desmoronar! Ele enriqueceu ilicitamente com esquema de jogos de azar na televisão, afinal, pensei que os jogos fossem proibidos aqui!", comentava ele, olhando para o horizonte no tabuleiro, com extrema racionalidade, peculiar aos que acabam de enlouquecer. E eu, bem, eu fui na cola do Daniel para ver onde ia chegar, fazendo um pé de meia com empréstimos a juros amigos, ou seja, toda semana eu ia na agência e jurava pro gerente que ia pagar. Fui avançando fazendo pão, vendendo a preços módicos para os franceses que, antes de comê-los, usavam também como absorvente de axilas, evitando assim o gasto com banho, já que naquele porto ninguém comercializava sabonetes. Depois de vinte semanas, um suadouro tremendo, futum de peixe velho, vivendo a base de pizza, guaraná com palitinho, endividamentos e muita, mas muita inadimplência, vem o resultado incrivelmente apertado. DanielCS, 158, Luish 156, Pablo 153, xuBs, 151.
Para fugir do molejo do mar, e das agruras da humanidade perdida e inadimplente, seguimos em peregrinação ascética, purificadora, redentora de pecados, em direção ao Himalaia, em busca do paraíso de Shangri-lá. Onde? Lá, ó! Disse o Pablo apontando para cima. Para o alto e avante, fomos nós, madrugada adentro buscando colocar tiles coloridos sobre o tabuleiro e destruindo as pontes pelo caminho. Entre mestres e discípulos, haviam sete escolas de ensinamentos fundamentais para a purificação da alma, como já era tarde e não tenho a memória do xuBs, vamos ver do que me lembro. No primeiro dia de aula, quando aprendemos as regras, houve um vazamento de gás do riso e perdemos parte das explicações do Pablo, o profeta. Refeitos das lágrimas, o messias continuou, enumerando as disciplinas que compõem a grade curricular de Lá: "Chover para cima, Gostosão da Bala Chita, Manivela Invertida, Cobra Criada, Dragon´s Gold, Estalinho e Xixi na Cama". A gente se entreolhou, achando aquilo tudo bem bizarro, mas já que estávamos por lá, só nos restava seguir em frente. Ao descobrir que a cantina estava fechada, os discípulos se revoltaram e, famintos, quebraram todas as pontes por onde passaram. Os mestres, que são mestres não é a toa, divulgaram para a imprensa que estava tudo em paz lá dentro de Shangri-lá, e que o isolamento do mundo era intencional, que só assim poderiam encontrar a paz interior.
Daniel aniversariante da noite venceu mais uma, liderando o quadro de medalhas. xuBs ficou em segundo, com sua medalha de ouro de Tikal, eu fiquei com o troféu Bullet´s por conseguir o segundo lugar nas três partidas, e o Pablo ficou em Shangri-lá.